


Fotos: Rui Pedro Cunha
Nome: La Boqueria
País: Espanha (Catalunha)
Cidade: Barcelona
Saber mais: http://www.boqueria.info/Esp/index.php; http://en.wikipedia.org/wiki/La_Boqueria
Ao longo dos últimos anos a minha resistência tinha sido absoluta: “Não quero conhecer Barcelona. Não gosto de Barcelona!”
Depois de a visitar envergonho-me se recordar a infantilidade daquela posição, desde logo, e principalmente, pela contradição pouco inteligente que a mesma encerra: como se pode ser afirmativo sobre o que não se conhece, sobretudo quando se trata de opinião tão firme e convicta?
Logo a seguir à vergonha vem o espanto da coincidência. Vencido o preconceito, depois da primeira viagem as circunstâncias levaram-me três vezes a Barcelona no espaço de pouco mais de um ano. Hoje em dia, diga-se de imediato, estou absolutamente rendido à atmosfera única da capital da Catalunha. Para que não fiquem dúvidas da patetice do meu precoce julgamento, assumo, desta vez com total conhecimento de causa, que considero Barcelona uma das cidades mais maravilhosas que visitei.
Companheira do mar, esse marcante Mediterrâneo, cálido e tranquilo, esta cidade tem tanto para contar, em resultado da sua longa história de mais de dois mil anos, que sem dificuldade encontraria duas mãos cheias de lugares na minha memória. Hoje, porém, vou escrever sobre uma verdadeira overdose para os sentidos: “La Boqueria”, o mais extraordinário mercado de Barcelona e um dos mais famosos do Mundo.
Descendo a Rambla, o vai e vem de gente, como um rio de todas as raças, obriga à máxima atenção para não passar sem ver a entrada discreta do mercado, neste local desde 1840, que fica à direita para quem desce da praça da Catalunha até ao monumento a Cristóvão Colombo, a meio do percurso, um pouco antes de chegar ao Teatro del Liceo.
Entrando, o visitante descobre a cada passo, no meio da multidão frenética, o espectáculo de cor, cheiro e sabores, dos melhores ingredientes da gastronomia mediterrânea. A exposição dos produtos parece feita para embebedar a vista, muito mais como uma trabalhosa arte do que como técnica de merchandising. Nada parece que está ali para ser vendido e comprado, mas apenas para ser olhado com enlevo.
A fauna viva que habita o mercado é do mais heterógeneo que se possa imaginar, não fosse o “La boqueria” em si mesmo uma amálgama de interesses e motivações. É provável que comece logo por aqui o seu encanto: o Japonês míope e fotógrafo à procura do melhor ângulo; o idoso Catalão que vem comprar os legumes e as frutas mais frescas da cidade; a vendedora paquistanesa que aprendeu a vender frutos secos; o peixeiro de terceira geração de uma família que sempre soube apresentar o peixe e o marisco como ninguém; o Galego que atravessou a Espanha para vender presuntos e enchidos serranos; o grupo de adolescentes Americanas que riem alto sem saber de quê; a mulher esfarrapada de riso demente que mostra a barriga branca e gorda a quem passa; o cauteleiro que anuncia sem convicção o “El gordo”, o maior dos prémios.
O “La Boqueria” não é de só de Barcelona. É do Mundo. Porque o Mundo está ali – nas suas misérias e vaidades; na sua beleza e diversidade; para espanto de quem ao olhar, sabe, quer e pode ver.
País: Espanha (Catalunha)
Cidade: Barcelona
Saber mais: http://www.boqueria.info/Esp/index.php; http://en.wikipedia.org/wiki/La_Boqueria
Ao longo dos últimos anos a minha resistência tinha sido absoluta: “Não quero conhecer Barcelona. Não gosto de Barcelona!”
Depois de a visitar envergonho-me se recordar a infantilidade daquela posição, desde logo, e principalmente, pela contradição pouco inteligente que a mesma encerra: como se pode ser afirmativo sobre o que não se conhece, sobretudo quando se trata de opinião tão firme e convicta?
Logo a seguir à vergonha vem o espanto da coincidência. Vencido o preconceito, depois da primeira viagem as circunstâncias levaram-me três vezes a Barcelona no espaço de pouco mais de um ano. Hoje em dia, diga-se de imediato, estou absolutamente rendido à atmosfera única da capital da Catalunha. Para que não fiquem dúvidas da patetice do meu precoce julgamento, assumo, desta vez com total conhecimento de causa, que considero Barcelona uma das cidades mais maravilhosas que visitei.
Companheira do mar, esse marcante Mediterrâneo, cálido e tranquilo, esta cidade tem tanto para contar, em resultado da sua longa história de mais de dois mil anos, que sem dificuldade encontraria duas mãos cheias de lugares na minha memória. Hoje, porém, vou escrever sobre uma verdadeira overdose para os sentidos: “La Boqueria”, o mais extraordinário mercado de Barcelona e um dos mais famosos do Mundo.
Descendo a Rambla, o vai e vem de gente, como um rio de todas as raças, obriga à máxima atenção para não passar sem ver a entrada discreta do mercado, neste local desde 1840, que fica à direita para quem desce da praça da Catalunha até ao monumento a Cristóvão Colombo, a meio do percurso, um pouco antes de chegar ao Teatro del Liceo.
Entrando, o visitante descobre a cada passo, no meio da multidão frenética, o espectáculo de cor, cheiro e sabores, dos melhores ingredientes da gastronomia mediterrânea. A exposição dos produtos parece feita para embebedar a vista, muito mais como uma trabalhosa arte do que como técnica de merchandising. Nada parece que está ali para ser vendido e comprado, mas apenas para ser olhado com enlevo.
A fauna viva que habita o mercado é do mais heterógeneo que se possa imaginar, não fosse o “La boqueria” em si mesmo uma amálgama de interesses e motivações. É provável que comece logo por aqui o seu encanto: o Japonês míope e fotógrafo à procura do melhor ângulo; o idoso Catalão que vem comprar os legumes e as frutas mais frescas da cidade; a vendedora paquistanesa que aprendeu a vender frutos secos; o peixeiro de terceira geração de uma família que sempre soube apresentar o peixe e o marisco como ninguém; o Galego que atravessou a Espanha para vender presuntos e enchidos serranos; o grupo de adolescentes Americanas que riem alto sem saber de quê; a mulher esfarrapada de riso demente que mostra a barriga branca e gorda a quem passa; o cauteleiro que anuncia sem convicção o “El gordo”, o maior dos prémios.
O “La Boqueria” não é de só de Barcelona. É do Mundo. Porque o Mundo está ali – nas suas misérias e vaidades; na sua beleza e diversidade; para espanto de quem ao olhar, sabe, quer e pode ver.